Crítica: Filme Caseiro (2008) - Sessão do Medo

1 de maio de 2019

Crítica: Filme Caseiro (2008)


O clichê está sempre a porta, o que é inevitável. E por mais que nos esbarremos em filmes comuns, o diferencial está na maneira que a história é contada. Então, aquela frase de que "o clichê funciona se for bem executado" pode ser aplicada aqui, uma vez que Filme Caseiro faz jus ao formato que se dispôs para narrar sua trama: o found footage.

Nesse molde, o filme não se afasta de trajetos repetidos para incrementar seu enredo. Família que se muda, mas ao chegar ao novo lar se deparam com algo do mal? Produções com pegadas sobrenaturais bem que conhecem esse tipo de evento, mas nada que impeça que seja usado em outro fim. Para os Poe, se afastarem da cidade para uma casa isolada, visando desfrutar do ambiente no campo com os dois filhos tinha tudo para dar certo, até se darem conta que os pequenos Emily e Jack exerciam um comportamento perigoso.

Sim, esse é mais um título que como tema trata de crianças com má índole. O que veio para fazer de Filme Caseiro uma experiência visceral e perturbadora, é seu estilo de filmagem amadora. O legal é que o uso dessa ferramenta foi bastante crível dentro da história do filme, tendo base a ideia de que o marido David (Adrian Pasdar) usa a câmera comprada para documentar o trabalho de psicologia da esposa Clare (Cady McClain) para registrar os vários momentos da família para o futuro dos filhos.

Desviando de muitas explicações e de uma estrutura convencional para expor a hostilidade dos Poe mirim, a direção de Christopher Denham cria uma atmosfera como se estivéssemos acompanhando os bastidores de uma convivência tóxica: sem uma composição para justificar o porquê das crianças se portarem de tal modo, apenas testemunhamos o que há de pior neles.

Certo que dar uma abordagem mais crua e real possível é o objetivo do found footage, mas é extremamente assustador o fato de que ao longo de seis meses, o registro de festas, brincadeiras, risos e lágrimas formaram a prova de uma família disfuncional, ruída aos poucos, enquanto o telespectador assiste cada pedacinho angustiante desse relato.

terminar o filme e lembrar dessa cena é apavorante
O que faz uma criança ter ações maliciosas? O que a faz sair da zona da inocência e relevar um lado obscuro? O engraçado que o que vimos são só as filmagens que os pais fizeram, logo os momentos que Emily e Jack premeditavam suas maldades ficaram em off aqui, tornando assim, a surpresa dos pais ao fazer descobertas bizarras e revoltantes a mesma de quem assiste tudo do outro lado da tela.

Ao observar atentamente ao quadro familiar que acompanhamos pode gerar uma possível inconformidade e, ao mesmo tempo, estimular uma discussão se os responsáveis pelos filhos estão devidamente ligados para os pequeninos. Uma área isolada em que há uma placa informado o acesso proibido dos pais, a passividade de David toda vez em que deve aconselhar, conversar ou punir, e a falta de estudo da mãe psicóloga em notar que os amados herdeiros estão com inclinações nada saudáveis, são questões que não justificam a razão da maldade em que se deparam, mas mostra que, ao evitarem tais atitudes poderiam ter entrado com intervenções para com os filhos.

Numa era em que crianças com menos de dez anos já possuem aparelhos eletrônicos e o pior, acesso à Internet, a falta de supervisão só garantem que os filhos aprendam e absorvam qualquer coisa, então não adianta muito evitar xingamentos dentro de casa, enquanto o smartphone é uma porta aberta de possibilidades e gera consequência s que, muito provavelmente, irreparáveis. Cada caso é um caso, mas talvez seja culpa do celular o filho ou a filha já necessitarem de um óculos com grau elevado, não acha?


Voltando para Jack e Emily, o cenário perverso em que eles alimentam ainda abre uma visão para como a falta de controle afeta ainda mais as circunstâncias. A fé poderia explicar? A ciência da psicologia poderia dar um jeito? Maldição da casa nova ou as Leis da Justiça poderiam punir do jeito certo? Denham inseriu de maneira rasa alguns elementos que envolvem tal tabu de crianças maldosas, mas que ainda assim serviram para dar um vislumbre de como seria com cada agente representante agindo com seus conhecimentos.

Sem nenhuma pretensão de ser como os outros, Filme Caseiro não se preocupa em construir sua trama mirando uma reviravolta, mas a todo tempo corre para cumprir sua proposta, e nada melhor do que usar do estilo caseiro para evidenciar desde os primeiros minutos a corrupção humana presente, e que os adultos não estavam tão atentos.

Ao evitar jumpscares ou outros instrumentos do susto fácil, e mesmo com o humor tão visto no formato footage, Home Movie (no original) sustenta sua premissa de apresentar uma experiência aterradora e afirma que para ser um filme de terror não precisa do exagero para com os elementos do gênero, apenas mostrou como o ser humano, seus pensamentos, fraquezas, crueldade e muitas outras características podem causar perturbação assim como o próprio horror.

Título: Home Movie
Ano: 2008
Duração: 77 minutos
Direção: Christopher Denham
Roteiro: Christopher Denham
Elenco:Adrian Pasdar, Cady McClain, Amber Joy Williams, Justin Williams, Lucian Maisel