Crítica: Obsessão (2019) - Sessão do Medo

20 de maio de 2019

Crítica: Obsessão (2019)


Nunca sabemos com quem de fato estamos lidando no a dia a dia. Seja no trabalho, na faculdade, na internet ou entre amigos, estamos sempre vulneráveis aos stalkers, indivíduos que transformam a perseguição aos outros em prática cotidiana. Às vezes, trata-se de alguém desesperado por uma amizade; por um relacionamento amoroso ou motivado por um desejo pessoal de vingança. Em outros casos, como no enredo de Obsessão (2019), o perseguidor é um psicopata.

Chloë Grace Moretz (vista recentemente em Suspiria - A Dança do Medo) interpreta Frances, uma jovem órfã de mãe que encontra uma bolsa perdida no metrô de Nova York e resolve entregá-la pessoalmente à dona, a viúva Greta (Isabelle Huppert, de Elle). As duas ficam amigas em pouco tempo, até que Frances descobre um armário na casa da mulher cheio de bolsas exatamente idênticas à que achou no metrô. Ou seja, Greta estava abandonando de propósito esses objetos para atrair pessoas até ela. Quando decide se afastar da viúva, Frances começa a ser perseguida - uma perseguição que só vai ficando mais assustadora com o passar dos dias.

Claro que, com essa trama e com o trailer divulgado, era de se esperar que Obsessão estivesse mais para um suspense padrão Supercine da Globo do que um clássico do cinema. O problema é que o longa não agrada nem como entretenimento despretensioso: o diretor Neil Jordan (Entrevista com o Vampiro) conduz uma trama irregular com furos, situações forçadas ou implausíveis e personagens desastrosos, a começar por aquela que dá título ao filme.


Greta é caricata, irritante e desprovida de qualquer qualidade que se espera de um bom vilão. Não é possível enxergar nela a inteligência ou a imprevisibilidade necessárias para uma stalker memorável - o que ela consegue com perfeição é ser insuportável com a mania de misturar francês com inglês o tempo todo. Se o roteiro não ajuda, Isabelle Huppert complica ainda mais com sua performance robótica marcada por expressões repetitivas. E, quando nada poderia ficar pior, surge uma cena em que a vemos dançando enquanto desvia de tiros. O sentimento do ridículo fala mais alto do que o do perigo. 

Os absurdos do roteiro, por sinal, não param por aí. Jordan (que acumula também a função de roteirista) e Ray Wright (de Caso 39) partem para soluções fáceis, clichês e com furos (se você ainda não viu o filme e quer fugir de spoilers, pule para o próximo parágrafo). Quer dizer, então, que Erica (Maika Monroe, de Corrente do Mal) conseguiu encontrar a bolsa de Greta em uma cidade do tamanho de Nova York em tão pouco tempo? Se ela passasse 24 horas vasculhando, qual seria a probabilidade de encontrar o objeto em um local no qual vivem mais de oito milhões de pessoas, que possui 469 estações e mais de mil quilõmetros de vias de metrô? É coerente a mesma pessoa que deu a ideia ridícula e sem sentido de dizer à stalker que tudo ia ficar bem bolar o plano genial e arriscado de assumir uma identidade falsa e envenenar, sem muitos problemas, a vilã? Greta, por sua vez, não era esperta o bastante para reconhecer Erica (de quem tirou inúmeras fotos) sob uma peruca? Como a "viagem" de Frances não levantou suspeitas da melhor amiga? Afinal, ela teria ido viajar sem se despedir, sem colocar as roupas do armário na mala e sem sequer ter mencionado antes a possibilidade de viajar com o pai (Colm Feore, de Maligno), de quem vinha mantendo distância. Muitas perguntas e nenhuma resposta.


A direção problemática de Jordan também é sentida em cenas mal-planejadas e, consequentemente, mal-executadas. O que foi aquele efeito sonoro do momento em que Frances avista Greta do outro lado da rua e derruba o pedido do cliente? O chiclete no cabelo? E a cena no elevador à la Premonição? Para não dizer que não falei das flores, há uma perseguição na rua que empolga e dá a sensação de desespero.

Em meio a tantos defeitos, nem dá para reclamar de Chloë Grace Moretz, atriz que, embora talentosa, não impressiona no papel e amarga mais um filme ruím em seu currículo. Em se tratando de histórias sobre stalkers, a comédia O Pentelho (1996), em que Jim Carrey vive um perturbado técnico de TV, e o suspense Distúrbio (2018) têm muito mais a oferecer do que Obsessão - que vai se contentar com a "honra" de ser forte candidato a aparecer nas tradicionais listas de piores filmes lançados no ano. Uma pena, já que, com outra abordagem, o resultado poderia ter sido muito melhor. 

Título Original: Greta
Ano: 2019
Duração: 98 minutos
Direção: Neil Jordan
Roteiro: Neil Jordan e Ray Wright
Elenco: Chloë Grace Moretz, Isabelle Huppert, Maika Monroe, Colm Feore