Crítica: A Sombra do Pai (2019) - Sessão do Medo

15 de maio de 2019

Crítica: A Sombra do Pai (2019)


Gabriela Amaral Almeida é o nome por trás de um dos filmes nacionais mais surpreendentes dos último anos. Com Murilo Benício inspiradíssimo no papel principal, O Animal Cordial (2017) subverte as expectativas do público e entrega muito mais do que um suspense comum: trata-se, sobretudo, do retrato social de um país fraturado.

Amaral retorna agora com A Sombra do Pai (2018), um filme intimista que, como a própria diretora comentou, pode ser taxado de distintas maneiras: suspense sobrenatural, drama espiritual e até mesmo como pós-terror, definição polêmica trazida pelo crítico Steve Rose, do jornal inglês The Guardian.

A trama é protagonizada por Dalva (Nina Medeiros, vista em As Boas Maneiras), menina orfã de mãe e que mora com o pai Jorge (Julio Machado, de Joaquim) e a tia Cristina (Luciana Paes, da série 3%) em uma casa bastante modesta. Ela acredita que tem poderes sobrenaturais e que é capaz de trazer a mãe de volta à vida. Com o casamento da tia, Dalva acaba ficando sozinha com o distante e angustiado pai - à medida que a relação entre os dois vai piorando, a menina se convence de que sua mãe precisa retornar logo. 


Mais importante do que buscar rótulos para A Sombra do Pai é reconhecer as qualidades do longa, a começar pelo elenco. O grande destaque fica por conta de Julio Machado, que vive uma figura paterna emocionalmente dilacerada. Por meio do silêncio, da postura cabisbaixa e do olhar do ator, vemos um homem que perdeu todo o entusiasmo pela vida, mostrando-se incapaz de entregar um presente de aniversário para a filha e sucumbindo a uma agressividade crescente (a cena do balanço é de dar agonia). Como se tudo isso não fosse o bastante, o coitado ainda é assombrado por uma presença fantasmagórica na obra em que trabalha como pedreiro.

Já Nina Medeiros não chega a entregar uma atuação marcante, mas interpreta com realismo uma protagonista madura e, ao mesmo tempo, inocente, uma criança de 9 anos que se torna a adulta da casa. E, nesse ponto, Gabriela Amaral Almeida também merece elogios por ter escrito uma personagem mais complexa do que pode parecer à primeira vista. E as referências aos clássicos A Noite dos Mortos-Vivos (1968) e Cemitério Maldito (1989), filmes a que Dalva assiste na televisão, não são gratuitas: ambos trazem seres humanos voltando à vida, mesma coisa que a menina quer fazer com a mãe. 

Ao escolher cenários cinzas e sem pintura, Amaral permite a criação de uma atmosfera pessimista, desprovida de vida e sem espaço para a beleza. O clima é mais sombrio ainda no prédio em construção, quase uma prisão barulhenta em que o sangue de um funcionário morto fica marcado no chão sem despertar a atenção dos superiores. Fica difícil não lembrar de outro filme nacional: Trabalhar Cansa (2011), que explora o horror do mercado laboral e do desemprego. 


O longa, obviamente, não está livre de defeitos, entre eles a dificuldade em engatar um bom ritmo, o diálogo extremamente expositivo na primeira cena (sério que a maneira encontrada para explicar sobre a morte da mãe de Dalva foi colocar a tia dela falando com a pessoa que estava fazendo uma espécie de censo? Por que não revelar isso de outra maneira no decorrer da trama?) e o desperdício do tema principal da trilha-sonora assinada por Rafael Cavalcanti, que, embora exibido no trailer e em anúncios do filme, acaba relegado aos créditos finais. 

No entanto, lamentável mesmo foi a estreia discreta do filme no cinema, algo que escapa do controle dos cineastas e aflige grande parte da produção brasileira. Na primeira semana, A Sombra do Pai só chegou a 9 capitais, segundo a página oficial no Facebook. Felizmente, o longa começa a ser exibido por uma grande rede de cinema na próxima quinta (16) e entra em cartaz em mais cidades, incluindo algumas do interior. Nada mais justo do que oferecer ao público a oportunidade de ter contato com o exemplar de uma safra de terror tão rica e bem-sucedida na busca de uma identidade própria, sem a tendência de recorrer a fórmulas e clichês hollywoodianos do gênero. 



Título Original: A Sombra do Pai
Ano: 2018
Duração: 92 minutos
Direção: Gabriela Amaral Almeida
Roteiro: Gabriela Amaral Almeida
Elenco: Nina Medeiros, Julio Machado, Luciana Paes, Rafael Raposo, Dinho Lima Flor