Crítica: The Witness (2018) - Sessão do Medo

4 de maio de 2019

Crítica: The Witness (2018)


Se, nos primeiros anos, a Netflix possuía um catálogo extremamente limitado, a companhia agora tem se esforçado em disponibilizar filmes de nacionalidades distintas, embora ainda peque bastante no quesito época, já que são poucos os longas lançados antes da década de 1990. Nessa leva de filmes fora do eixo hollywoodiano, as produções sul-coreanas presentes no catálogo são sempre uma ótima opção: há pouco tempo, já tínhamos elogiado Rastros de um Sequestro (2017) e chegou a vez de falar de The Witness (2018), que pode ser traduzido ao português como A Testemunha.

Morador novo de um edifício de classe média, Sang-hoon (Lee Sung-min) presencia o assassinato de uma jovem pela janela do seu apartamento. Com medo, ele decide não contar à polícia que testemunhou o crime. O problema é que o assassino sabe que foi visto e continua à espreita no bairro, ameaçando a família de Sang-hoon e obrigando-o a confrontar sua própria consciência.

Seria muito fácil olhar para o protagonista do filme, um trabalhador e pai de família comum, e julgá-lo pela omissão. Mas só quem teve de ser testemunha em algum processo (não necessariamente um homicídio) sabe o quanto a situação é aterrorizante por si só. No caso de Sang-hoon, há o agravante de que existe um risco explícito à sua vida e à da sua família.


Explorando bem as consequências daquela noite na vida do personagem (que assume as feições de um homem angustiado sofrendo em silêncio), The Witness denuncia ainda uma sociedade mesquinha e egoísta. A preocupação de grande parte dos moradores do edifício não é com a resolução do crime - mas, sim, em como a ocorrência de um assassinato na praça da frente poderia desvalorizar os imóveis na hora da venda. A cena mais emblemática (e igualmente triste) envolve a tentativa de um morador espalhar cartazes na busca pela esposa desaparecida. "Muito triste que a sua esposa sumiu, mas não vamos criar pânico e dar a impressão de que o bairro está ficando perigoso, ok?", era o que faltava alguém dizer ao marido desesperado.

As autoridades, aqui representadas na figura da polícia, tampouco escapam da mira do diretor estreante Cho Kyu-Jang. Existe uma pressa em finalizar o caso e, quando o detetive Jae-yeop (Kim Sang-ho) desconfia que foram atrás do suspeito errado, escuta de outro policial que admitir o erro pegaria mal para os seus superiores.


Além de suscitar esses questionamentos, o longa ainda traz personagens interessantes e plausíveis (Sang-hoon, por exemplo, está muito longe dos protagonistas implacáveis interpretados por Liam Neeson), equilibra bem tensão e ação (incluindo perseguições de carro) e não decepciona na parte técnica, especialmente em termos de fotografia e montagem. 

Claro que não se trata de um filme perfeito. Falta um desenvolvimento maior para o vilão e algumas situações são bem forçadas. Fica difícil, por exemplo, engolir a ideia de que um prédio no qual os moradores abrem as portas acessando um painel eletrônico não tenha câmeras de segurança detectando a ação do serial killer nos corredores. O final também peca por seus exageros, trazendo uma cena que seria mais aceitável se estivéssemos diante de um daqueles longas de ação do Tom Cruise.

No final das contas, The Witness reforça uma ideia que nós do Sessão do Medo já temos defendido há um bom tempo: vale sempre a pena olhar além dos letreiros de Hollywood e buscar produções de outros países. Bem representado no terror e no suspense, o cinema sul-coreano vai ser uma grata surpresa para quem ainda não o conhece.

Importante: se você estiver lendo essa crítica muito tempo depois da publicação, é possível que o filme não esteja mais no catálogo da Netflix. 
Título Original: Mok-gyeok-ja
Ano: 2018
Duração: 111 minutos
Direção: Cho Kyu-Jang
Roteiro: Jo Kyu-Jang e Lee Young-jong
Elenco: Lee Sung-min, Kim Sang-ho, Jin Kyung, Kim Seong-gyoon, Bae Junghwa