Por que tanto "pânico"? A confusão nas traduções de filmes de terror - Sessão do Medo

7 de maio de 2019

Por que tanto "pânico"? A confusão nas traduções de filmes de terror


Alvo até mesmo de piadas, já é sabido por muita gente que as traduções de filmes e séries  não são a parte mais querida entre os cinéfilos. Isso equivale para qualquer gênero: se não temos traduções que nada têm a ver com a obra, recebemos títulos que dão spoilers, resumem o enredo no subtítulo ou que se tornam redundantes - um exemplo recente é do vindouro Midsommar, que ganhou o complemento de "O Mal Não Espera a Noite".

Mas vamos confessar que há casos que tornaram o longa-metragem famoso devido ao seu nome, ou poderíamos esquecer da franquia Se Beber, Não Case! (2009)? Bem, como a nossa pauta é sobre o terror e suspense, nada mais justo do que explorar um pouco do que há de bizarro nos títulos desses universos. Com muita polêmica, vamos nessa.

Pra que tanto pânico?

O primeiro exemplo de muitos é o uso constante de nomear os filmes com a palavra "pânico". Relembremos alguns: Pânico na Neve, Pânico no Lago, Pânico na Estrada, Pânico na Escola, Pânico na Ilha, Pânico no Deserto, Pânico em Lovers Lane, Pânico na Floresta de 2000 e o mais conhecido de 2003. Onde poderá ter mais pânico?

O filme francês ("Promenons-nous dans les bois" no original, ou "Deep in the Woods" no inglês) de 2000 nada tem a ver com icônico longa de 2003, mas já serve para apontarmos aqui o quesito repetição nas traduções brasileiras, pois, se a pessoa que quiser assistir ao filme pesquisando apenas o nome nacional, provavelmente irá esbarrar em qualquer uma das realizações.

No lado esquerdo, o filme francês, no lado direto o norte-americano
Acha que acabou por aí? A trama da família de canibais iniciou com boa forma ao combinar o terror e o suspense num produto memorável, e devido ao sucesso, por que não investir numa sequência? Os produtores certamente não perderam tempo, só não contavam com a astúcia da Playarte Pictures, a distribuidora responsável no Brasil. 

No inglês, a película foi vinculada com o nome "Wrong Turn", algo como "Curva Errada", e assistindo ao filme faz todo sentido uma vez que os protagonistas acabaram se desviando do caminho projetado e caindo nas mãos dos assassinos da região. O seu sucessor manteve o bom atributo, com adição de "Dead End", então ficou "Wrong Turn: Dead End", em referência a uma cena do antecessor.

O problema começou quando em 2007 a Playarte decidiu chamar de Pânico na Floresta 2 o desconhecido Timber Falls (no original). O vídeo rapidamente repercutiu, mas confundiu muitas pessoas depois que perceberam que a história não era nada parecida com o filme lançado há quatro anos. Mais tarde, no mesmo ano, a narrativa dos canibais se tornou notória, mas teve que ser nomeada como Floresta do Mal. A partir daí a confusão continuou já que os filmes seguintes ora eram atrelados aos moldes de 2007, ou ao de 2003. Ou seja, talvez você veja por aí Floresta do Mal: Caminho da Morte e Pânico na Floresta 3, mas que no final se referem ao mesmo longa lançado em 2009.


Curiosidade: Mar Aberto (Open Water, 2003) na sua sequência em 2006 foi chamado de Pânico em Alto Mar. Em sua defesa, o primeiro foi distribuído pela Lumiere Brasil, e o segundo pela Europa Filmes.

Do que você tem medo?

O nosso segundo exemplo é relacionado aos filmes que têm tanto "medo" em seus títulos. São eles: Ilha do Medo (2010), A Marca do Medo (2014), Medo em Cherry Falls (2000), Abismo do Medo (2005), Medo Profundo de 2007 e de 2016.

Aqui vai um caso especial de familiaridades, ambas distribuídas pela Playarte Home Video e tendo como temática animais predadores. Ao menos dessa vez há um adendo que não prejudique as produções. O menos conhecido lançado direto em DVD, no nome de origem é Black Water, o que remete ao cenário que os personagens se veem ameaçados por um crocodilo num pântano. Já ao caso mais recente, 47 Meters Down (com sequência confirmada) é o número de metros que as irmãs protagonistas estão no fundo do mar, presas numa enorme jaula, enquanto um tubarão está à espreita.

Outra boa notícia são as nacionalidades dos filmes, assim como cada um pôde conquistar seus méritos apostando em propostas diferentes. Vale ressaltar que, no ano passado a trama do crocodilo ganhou sinal verde para mais um filme titulado de Black Water: Abyss. A história acompanha um grupo de amigos que descem a boca de uma caverna para se protegerem de uma tempestade, mas lá são encurralados por crocodilos. Sei não, mas parece que depois de tantos tubarões, os crocodilos estão voltando aos holofotes em projetos ambiciosos


 Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, mas tinha...

Ah, lar doce lar. Sabemos que ao termos descrições de histórias de famílias que mudam para encontrar novos rumos, mas o que recebem é uma casa do capiroto é coisa muito comum no mundo do horror. Das mais diversas casas que vemos ao longo dos anos serem plano de fundo para muitos cenários, é mais do que evidente que há bastantes longas que começam com "a casa" em seus nomes - nem as animações escaparam, vide A Casa Monstro (2006).

A Casa de Cera (2005), A Casa de Sangue (2006), A Casa Silenciosa (2011), A Casa dos Mortos (2015), A Casa do Espanto (1986), A Casa Amaldiçoada (1999), A Casa (2010), A Casa de Vidro (2001), A Casa dos Sonhos (2011), A Casa do Medo (2015), A Casa do Medo (2018) e A Casa do Medo - Incidente em Ghostland (2018). É claro que ainda há muitas casas por aí (até a que Jack construiu), mas vamos focar nas duas últimas.

O primeiro (Bad Samaritan no original) lançado direto em DVD pela imagem filmes recebeu tal título traduzido e a trama é sobre uma dupla de assaltantes que, num evento específico, ao invadir uma casa terão que lidar com consequências inesperadas. O segundo foi distribuído pela Paris Filmes e estreou no dia 18 de outubro do ano passado, marcado pela polêmica de um acidente no set que resultou na desfiguração do rosto de umas das protagonistas (a atriz Taylor Hickson).

A questão é que o filme se adequa a uma das exemplificações que mencionei no início do texto: a redundância dos títulos. No inglês é Ghostland, na tradução é A Casa do Medo (nome bem genérico, por sinal) que ainda recebe a somatória de Incidente em Ghostland. O porquê de a terra fantasma nomear a película quem assistiu ficou sabendo , mas o caso aqui não deixa de ser gritante, já que poderiam ter deixado apenas a menção do incidente ou o padrão.



Pagando bem, que mal tem?

Para esse último exemplo vamos para algumas menções honrosas. Outra incansável e repetitiva nomeação em traduções brasileiras é o "mal", mal que segue e que deixa tudo tão manjado.

Como esquecer de It Follows (2014) que simplesmente foi reduzido a Corrente do Mal? Não querendo ser recorrente quanto o uso da palavra, mas esse é mais um arranjo em que poderia ter mantido a ideia original do nome do que entregar o resumo básico do que a trama tem a oferecer - "Ele Segue" faria todo o sentido. Pode piorar? Sim, pois não tem como ignorar a saga da boneca prima distante do Chucky (forcei a barra)... É sobre ela mesmo que estou falando, a Annabelle.

O primeiro filme surpreendeu por deixar o nome da miserável titular a fita solo, mas aí veio a continuação estragar o que estava bom (só na ilustração, ok?), visto que veio a ser chamado de Annabelle: A Criação do Mal (2017). O que levanta o questionamento do motivo disso, sendo que se conservasse o "A Criação" assim como o original ("Annabelle: The Creation"), certamente o público iria entender que a história contada era sobre como a boneca nasceu, logo esse "mal" foi desnecessário.

Continuando essa genealogia de bonecos macabros, o mais recente a se juntar ao grupo (teve o Dummy também) foi Brahms, ou como você deve lembrar melhor, Boneco do Mal (2016). Esse marketing que insiste em se arriscar na mesmice não convence, onde, de novo, seria interessante tentar manter "O Garoto" traduzido ao pé da letra, e aí se aplicaria melhor a premissa que o filme apresentou. No máximo até "O Boneco" seria aceitável.

Como essa recorrência será vista mais vezes, vamos encerrar esse texto repassando alguns nomes. Invocação do Mal (2013), O Caminho do Mal (2014), Filha do Mal (2012), A Casa do Mal (2000), O Chamado do Mal (2018), A Possessão do Mal (2014), A Face do Mal (2014), Enviada do Mal (2015), A Ilha do Mal (2017), A Colheita do Mal (2007) e podemos parar por aqui, ou se bobear, ao tentar combinar qualquer palavra com o "mal" pode virar nome de mais um filme.