Crítica: Brightburn - Filho das Trevas (2019) - Sessão do Medo

28 de junho de 2019

Crítica: Brightburn - Filho das Trevas (2019)


2019 anda sendo um ano bem interessante pro terror blockbuster. Pode-se notar que há uma certa pluraridade, ao contrário de alguns anos atrás onde basicamente 80% se tratava de bobagens sobrenaturais pós-James Wan. Talvez uma das produções mais curiosas e aguardadas (por mim, pelo menos) era Brightburn, que contava com produção do James Gunn (Guardiões da Galáxia).

Para quem não sabe, Brightburn trata-se de uma reimaginação contemporânea da história de origem de Superman sob as lentes do terror. Mesmo sendo uma ideia bastante criativa e instigante, é até difícil não lembrar de outra investida recente na desconstrução de super-heróis, que foi a retomada de M. Night Shyamalan em sua trilogia Eastrail 177, concluída também este ano com o terceiro capítulo Vidro (2019). 

Enquanto as intenções de Shyamalan é reimaginar um arco de quadrinhos no mundo real, ideia esta que começou com Corpo Fechado (2000), a premissa de Brightburn é desconstruir toda a lenda do Superman, um personagem icônico e definido de certa maneira na cultura popular. E se, ao invés dele usar seus poderes para proteger a humanidade, ele acabasse fazendo o que todos, a princípio, temiam?


Mesmo não utilizando elementos óbvios, toda a tragetória inicial do homem de aço serve de inspiração para a contextualização do enredo. Um casal de fazendeiros, impossibilitado de ter filhos, acaba sendo agraciado por um acontecimento inexplicável. Uma cápsula extra-terrestre cai em seu terreno carregando um bebê. O presente vindo - literalmente - dos céus é acolhido pela família, se tornando Brandon (Jackson A. Dunn).

Após 12 anos aparentemente perfeitos, Tori (Elizabeth Banks) e Kyle (David Denman) começam a desconfiar de que há algo de errado com o seu filho. Comportamento suspeito e impulsos violentos coincidem com uma onda de mortes na cidade. Não demora muito para fazerem a matemática e perceberem que a escolha de acolher aquele ser, com aparência humana, foi bastante errada. Mas pode ser tarde demais pra voltar atrás.

Brightburn funciona a base de dois elementos essenciais. Primeiro, as tiradas inteligentes e referências ao mundo surreal dos quadrinhos. O filme é, em sua essência, uma história de origem e é interessante ver como o roteiro constrói paralelos entre as duas narrativas, sempre destacando como a interpretação é totalmente diferente. Sabe aqueles vídeos que tem no Youtube onde o pessoal reedita filme de um gênero X para parecer de outro gênero? É tipo isso.

E isso funciona até certo momento. Mas depois você percebe que o filme se apoia demais nessas referências. Entra em cena o segundo elemento que serve como um gás para empolgar o público: a violência. Creio que ninguém esperava que Brightburn fosse algo mais gráfico, mas não é nada disso. As mortes são realizadas de maneira brutal e isso provavelmente será a maior surpresa do longa-metragem.


Infelizmente, Brightburn parece mais como uma proposta de projeto do que algo totalmente finalizado em si. Mesmo com sua premissa genial, a sensação deixada é que não estamos vendo algo completo em cena. O roteiro sempre parece se restringir, atingindo uma barreira criativa invisivel que mesmo que não seja óbvia, está lá e o público consegue sentir. Não sei se foi um caso de orçamento limitado ou apenas uma tentativa de tentar manter a história pequena e contida, mas definitivamente foi uma pedra no sapato.

No entanto, é interessante notar que o mesmo roteiro, assinado pelo irmão e primo do James, Brian e Mark Gunn, é esperto o suficiente para subverter os clichês de forma que Brightburn ainda pareça algo totalmente fresco e inovador, mesmo que se você vá parar pra pensar por dois segundos, perceba que se assemelha tanto aos supracitados filmes de Shyamalan quanto também qualquer terror com crianças diabólicas. De qualquer forma, só pelo fato deles terem conseguido fazer isso, já merece um joinha. 

Mesmo não entregando tudo que seu potencial oferecia e tornando a obra menos memorável do que poderia (e talvez merecia) ser, Brightburn é um esforço ousado que pode ainda gerar muitos frutos no futuro, como os próprios envolvidos já demostraram interesse em explorar mais desse universo upside-down. As referências à Mulher-Maravilha e Aquaman na cena pós-crédito podem servir de inspiração pra isso, não acham?

Título Original: Brightburn
Ano: 2019
Duração:
Direção: David Yarovesky
Roteiro: Brian Gunn, Mark Gunn
Elenco: Elizabeth Banks, David Denman, Jackson A. Dunn