Crítica: Brinquedo Assassino (2019) - Sessão do Medo

29 de junho de 2019

Crítica: Brinquedo Assassino (2019)


Vocês não adoram a sensação de começar a ver um filme esperando a pior coisa do mundo e acabar tendo a reação totalmente oposta disso? Por incrível que pareça, foi o que rolou quando fui conferir o remake de Brinquedo Assassino, um projeto que vem torcendo o nariz de muita gente a cada trailer/foto divulgado, por não apenas se arriscar em trazer uma versão tecnológica do idolatrado boneco Chucky, mas também por ter apostado num visual beeeem duvidoso do boneco.

Para a minha surpresa, eu me deparei com um filme bem divertido e honesto. Contando com a direção de Lars Klevberg (Morte Instantânea), a refilmagem do clássico de 1988 troca o serial killer praticante de voodoo Charles Lee Ray que transfere sua alma para um boneco Good Guy para explorar os males da tecnologia e inteligência artificial nos bonecos Buddi.

Desenvolvidos pela indústria fictícia Kaslan, essa linha de brinquedos é um passo diferenciado no mercado por não ser apenas direcionado para as crianças. Com sua tecnologia wi-fi, os Buddi conseguem ajudar em diversas outras tarefas, desde ligar a televisão, colocar uma música pra tocar ou pedir o seu KaslanCar (uma espécie de Uber com carros sem motorista), o que acaba o tornando a mercadoria do ano. Com a segunda versão, o Buddi 2, prestes a ser lançada, é aí que conhecemos nossos personagens principais.

A jovem mãe Karen (Aubrey Plaza) trabalha em uma loja estilo Walmart e resolve "salvar" um Buddi defeituoso que foi retornado para presentear seu filho de 12 anos, Andy (Gabriel Bateman). Os dois vivem sozinhos desde que o pai dele os abandonou, mas a dupla tem uma ótima parceria entre mãe e filho. Mesmo não estando muito agradado com o seu boneco Buddi (aliás, a nova versão estava prestes a sair e a primeira era, segundo Andy, pra "criancinhas"), o garoto resolve acolher o presente para não magoar a mãe.

Mas há duas coisas que ele não esperava: criar um laço com o boneco visto que ele não tem muitas amizades no novo prédio. E que o brinquedo, cujo nome era pra ser Han Solo mas acaba sendo erroneamente interpretado pelo boneco como Chucky, acabasse desenvolvendo tendências homicidas na intenção de agradar o seu novo melhor amigo. 


Essa refilmagem de Brinquedo Assassino tinha absolutamente tudo pra dar errado. A franquia original, cujo último filme O Culto de Chucky (2017) foi recebido com críticas bem mistas do público por considerá-lo muito "despirocado", não estava mais tão em alta e fazer essa refilmagem do clássico enquanto as próprias sequências dele ainda são trabalhadas (lembre-se que uma série está em produção, dando continuação ao sétimo longa) poderia ser um tiro no pé.

A repaginada do vilão também não foi algo que agradou o pessoal, e nesse ponto realmente não há muita defesa. Mas mesmo que o novo Chucky não seja tão agradável ao olhar (o primeiro já não era tanto assim), é admirável não apenas o esforço de terem optado pelo animatronic, mas também a escolha acertada de trazer Mark Hamill (Star Wars) para dar vida à ele. O trabalho vocal do ator é incrível e certamente não deixa dívidas com a voz original do Brad Dourif.

No entanto, a verdade é que esse remake foi feito da única maneira que poderia funcionar hoje em dia. A premissa de um serial killer que utilizou magia voodoo para transferir sua alma para um boneco não daria certo com as audiências de hoje, então esse update na premissa é bem-vindo e feito sem muita forçação (talvez só a já comentada escolha do nome Chucky). E mesmo que em sua essência, o novo Chucky seja o resultado de um funcionário revoltado que reprograma aquele único exemplar, é interessante ressaltar a forma que ele aos poucos adquire seu lado psicopata, de forma ingênua e irônica, como por exemplo, assistindo O Massacre da Serra Elétrica 2 (1986), o que acaba posteriormente inspirando uma de suas mortes.

E mesmo com isso, há uma espécie de autoconsciência no roteiro que faz com que toda a história funcione muito bem. Houveram questionamentos sobre a idade já avançada do novo Andy mas felizmente, o roteiro trabalha esses pequenos detalhes de forma que fique crível, há esse respeito com os personagens. Claro que nem tudo é perfeito e o momento em que o protagonista resolve finalmente se livrar do boneco acontece tarde demais para nosso bom-senso aceitar, mas dos males, é o menor.

Além de tudo, não se enganem, esse remake é bem violento. Definitivamente mais violento do que o original, as mortes são bem-executadas e não pouparam esforços para pôr sangue na tela. Temos rostos sendo retirados no melhor estilo Leatherface, membros decepados, facadas a torto e a direito e até mesmo uma sequência super interessante que só posso comparar a um Toy Story versão-horror.

O resultado final da refilmagem de Brinquedo Assassino se assemelha mais a um trabalho honesto do que apenas um caça-níquel. Muitos ainda irão implicar por saudosismo, mas é um filme bastante comercial e divertido, trazendo um pouco do terror pipoca nas raízes do slasher. Então, uma dica: deixa a Annabelle de lado. A nova "atualização" do Chucky pode ser mais satisfatória do que você imagina.
Título Original: Child's Play
Ano: 2019
Duração: 90 minutos
Direção: Lars Klevberg
Roteiro: Tyler Burton Smith
Elenco: Mark Hamill, Aubrey Plaza, Gabriel Bateman, Brian Tyree Henry