Crítica: Pânico na Ilha (2004) - Sessão do Medo

31 de julho de 2019

Crítica: Pânico na Ilha (2004)


No começo de uma década que foi marcada pelo reavivamento do slasher e propensão a refilmagens, Pânico na Ilha chegou na intenção de zoar com o primeiro tipo de uma forma menos esculachada que outros exemplos como Todo Mundo em Pânico (2000), que continua sendo talvez o maior e melhor tipo de paródia desse subgênero. Ao invés de copiar plots inteiros em prol do besteirol, esse filme do Broken Lizard - um grupo de humoristas responsáveis por Super Tiras (2001) - almejou abraçar os clichês e literalmente entregar um filme que poderia ter saído dos confins dos anos 80 se não fosse a autoconsciência dele.

Originalmente intitulado Club Dread, o filme se passa na Ilha do Prazer, um lugar na Costa Rica pertencente à Coconut Pete (Bill Paxton), um excêntrico artista que fez sucesso há muitas décadas atrás e agora vive sua vida nesse pedaço do paraíso, recebendo visitantes de todo o mundo em busca de bebida, sol e azaração. E esse verão prometia exatamente isso, se não fosse por um assassino que começa a eliminar os funcionários, um a um, demandando que eles continuem o show sem deixar os hóspedes descobrirem o que está acontecendo.

Esse é um daqueles filmes que você assiste e pode chutar facilmente de que época - talvez até exatamente de que ano - ele é por ser tão tipicamente early 2000s. E embora não seja nenhuma obra-prima revolucionária, ainda acredito que Pânico na Ilha mereça um pouquinho mais de crédito do que ele recebe (que é basicamente nenhum, rs). Aliás, essa década definitivamente teve filmes piores e se você for restringir a lista para apenas slashers, vai encontrar coisas bem mais cabulosas do que essa comédia de horror que nunca tenta se levar a sério. 


Como comentei, é uma produção que procura tirar um pouco de sarro dos slashers sem se tornar algo tão específico. Acontece que o roteiro escrito pelas mãos dos Broken Lizard na verdade tenta pegar as características que esses tipos de filmes reproduzem exaustivamente, das garotas semi-nuas até a lenda do assassino na roda na fogueira, e todos os seus conceitos sem exatamente apontar o dedo para eles. Obviamente, há roteiros melhores que usam e abusam da metalinguagem de forma mais inteligente, como por exemplo o excelente Terror nos Bastidores (2015), mas a verdade é que Pânico na Ilha nunca se comprometeu em ser algo esperto e não tenta ser o que não é. 

Nesse cenário, temos o assassino misterioso (usando um poncho e empunhando um facão!), os personagens desmiolados, as cenas de perseguição, a contagem de corpos, a mocinha (interpretada pela Brittany Daniel), as pistas sanguinolentas, as mortes violentas, o clima de whodunnit e até mesmo um antagonista duro na queda. É um filme slasher clássico com personagens estranhamente curiosos e a única coisa que pode diferenciá-lo de qualquer outra produção B obscura dos anos 80 é justamente o fato dele conhecer sua cartela de convenções e propositalmente usá-la na intenção de brincar com elas e não apenas usá-las como ferramenta narrativa.

E mesmo sendo essencialmente uma comédia, acho importante comentar que as cenas puxadas pro terror são bem executadas. Talvez Pânico da Ilha estabeleça um precedente que não havíamos percebido até recentemente: humoristas realmente tem uma boa mão pro horror. Mesmo que grande maioria de seu material seja cômico, o filme tem boas mortes (de cabeça decepada em cima do disco rodando até um corpo amarrado por cordas sendo violentamente dividido no meio pela pressão).

No final das contas, sua intenção é divertir e realmente parece que a equipe estava se divertindo por trás das câmeras (o grupo o considera seu filme mais divertido). Portanto, embora a duração seja um pouco maior do que deveria, é um filme que funciona. Numa revisão, Pânico na Ilha parece um filme que foi lançado num momento em que o público estava cansado e talvez realmente leve uns anos para que ele seja visto como o entretenimento descomprometido que realmente é.

Título Original: Club Dread
Ano: 2004
Duração: 104 minutos
Direção: Jay Chandrasekhar
Roteiro:  Kevin Hefferman, Jay Chandrasekhar, Steve Lemme, Erik Stolhanske, Paul Soter
Elenco: Brittany Daniel, Kevin Hefferman, Jay Chandrasekhar, Steve Lemme, Erik Stolhanske, Paul Soter, Bill Paxton, Jordan Ladd