Crítica: Scream - Resurrection | 3ª Temporada (2019) - Sessão do Medo

11 de julho de 2019

Crítica: Scream - Resurrection | 3ª Temporada (2019)


Pelo visto não é apenas no cinema que franquias slashers podem apertar o botão "reset" e fingir que nada aconteceu, como Halloween fez (duas vezes!). Nas telinhas isso também pode acontecer e a prova está na versão televisiva de Pânico (1996). Há 4 anos, a MTV se arriscava em adaptar um dos maiores clássicos contemporâneos do terror para um novo público através da série Scream. Mesmo não sendo excelente - nem exatamente um estrondo de crítica ou público -, o show tinha sua audiência, tendo crescido principalmente após a Netflix adquirir direitos internacionais de distribuição.

O que ninguém realmente esperava é que o já confirmado terceiro ano da série abandonaria tudo até então para reiniciar. Sob nova direção, os planos era trazer de volta o clássico visual do assassino usado nos filmes - mas não-utilizado na reimaginação - em uma nova premissa, que troca a cidadezinha pacata de Lakewood pela grande capital Atlanta. E esse texto provavelmente teria saído há dois anos, não fosse pelo fato dos produtores terem entrado em falência após o escândalo do Harvey Weinstein (diretor da Weinstein Company, que por sua vez era dona da Dimension Films, produtora da série), colocando não apenas ela mas outros projetos na geladeira enquanto os problemas eram resolvidos.


Até que finalmente, com um novo canal (agora o VH1), Scream retorna em um evento de três noites, dois episódios pra cada, que se deu início nesta segunda, dia 8. Resurrection é o subtítulo desse reboot, que entre suas novidades, está a presença de um final boy ao invés da clássica mocinha. RJ Cyler (Power Rangers) assume o papel do protagonista Deion Elliot, um talentoso e promissor jogador de futebol cujo passado volta para assombrá-lo na forma de um assassino mascarado.

Acontece que há vários anos atrás, numa noite de Dia das Bruxas, Deion testemunhou o assassinato de seu irmão gêmeo Marcus por uma figura que as crianças chamavam de "Homem-Gancho" (participação especial de Tony Todd!). Embora o corpo de Marcus nunca tenha sido encontrado e o acusado não tenha sido preso, a presença do garoto se torna o pivô de uma série de mortes onde o assassino usa a mesma fantasia que ele usava naquela noite.

Os alvos, além de Deion, são seus colegas de classe: a novata Liv (Jessica Sula, Fragmentado), a militante Kym (Keke Palmer, Scream Queens), seu melhor amigo Manny (Giullian Yao Gioiello), a gótica expert em filmes de terror Beth (Giorgia Whigham, 13 Reasons Why), o introvertido Amir (CJ Wallace) e o traficante Shane (Tyler Posey, Verdade ou Desafio). Um por um, os jovens são exterminados pelo assassino que parece sempre estar um passo a frente.

Numa tentativa de subverter as expectativas - e os clichês - do gênero, na mesma maneira que os roteiros de Kevin Williamson na franquia original faziam, os personagens tentam estudar as doutrinas do gênero para ultrapassar os planos do assassino. Nesses momentos, a série tenta emular ao máximo os diálogos descolados onde as ações são destrinchadas em meio a menções e referências a clássicos. Em alguns momentos, funciona (como na discussão sobre negros no terror em que citam Jordan Peele e Corra!). Em outros, é um pouco vergonhoso. A falta de sutileza no roteiro torna esses momentos gratuitos e uma tentativa aparentemente forçada de fazer o público acreditar que os personagens são inteligentes, o que acaba sendo provado o contrário em momentos decisivos posteriormente.

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No entanto, sutileza nunca foi algo muito presente na série Scream. Nos textos que escrevi sobre as temporadas anteriores (que vocês podem ler nos links acima), comentei como os momentos de metalinguagem nunca funcionavam por causa do roteiro fraco, além de que talvez a melhor escolha teria sido lançar a série sem o uso da marca "Scream", pois talvez funcionaria melhor sem a constante comparação direta.


Outro ponto que sempre critiquei era como as temporadas anteriores tinham medo de eliminar seus personagens (coisa imperdoável em um slasher) e as próprias mortes eram um pouco fraquinhas. Felizmente, acho que isso não é algo que podemos reclamar em Resurrection. Por funcionar como uma minissérie e ter poucos episódios, a história se torna mais ágil e os personagens facilmente se encontram encarando a faca do assassino. E as mortes também são consideravelmente violentas, destaque para uma que ocorre num elevador...

Mas mesmo alguns desses pontos positivos não conseguem salvar a temporada do fracasso, justamente porque seu roteiro fraco cria personagens desinteressantes e vazios. Qualquer tentativa de aprofundamento não cola e isso prejudica bastante pois: 1) é uma série e por mais que seja um slasher, os personagens precisam ser interessantes; e 2) isso não é uma desculpa visto que todos os quatro filmes tiveram ótimos personagens, principalmente Pânico 3 (2000) com sua inesperada sátira a Hollywood. As atuações do elenco, que são forçados a tirar leite de pedra, também não ajudam e a fórmula do desastre está formada.

É uma pena pois eles finalmente tiveram a oportunidade de utilizar a máscara oficial da marca. No entanto, a sensação é que essa história poderia ter acontecido com qualquer, e repito, qualquer outra fantasia e assassino. E talvez dessa maneira, as coisas teriam rolado de uma forma mais satisfatória. Mesmo com algumas surpresas na manga, Resurrection é um retorno esquecível e apesar dos planos de continuar a série em formato de antologia, é bem provável que esse seja o passo final do Ghostface por um bom tempo...

Criada por: Brett Matthews
Canal: VH1
Episódios: 6
Elenco: RJ Cyler, Jessica Sula, Keke Palmer, Giorgia Whigham, Giullian Yao Gioiello, Tyler Posey, Tyga, Mary J. Blidge, Tony Todd, Roger Jackson, Paris Jackson