Crítica: Um Drink no Inferno (1996) - Sessão do Medo

17 de julho de 2019

Crítica: Um Drink no Inferno (1996)


Recém-saído de Cannes com o maior prêmio de festival e também o Oscar de Melhor Roteiro Original por Pulp Fiction - Tempo de Violência (1994), ninguém imaginaria que o seu próximo passo seria algo tão... único quanto Um Drink no Inferno. O que muitos nem chegam a pensar é que, apesar do capricho e até mesmo a participação do próprio Tarantino como um dos personagens principais, o filme nasceu de um acordo entre ele e Robert Kurtzman (O Mestre dos Desejos), que era o especialista em maquiagem de seu primeiro longa, Cães de Aluguel (1992). Se Tarantino escrevesse o roteiro com base em sua ideia, Kurtzman realizaria a infame cena da orelha na produção. No entanto, embora não tenha sido concebido da cabeça do Taranta, a proposta realmente aflorou em sua mente. Anos depois, após colaborar com o Robert Rodriguez na curiosa antologia Grande Hotel (1995), o cineasta apresentou o projeto e foi assim que Um Drink no Inferno nasceu.

O próprio Rodriguez estava sendo aos poucos introduzido no mercado americano, tendo dirigido os aclamados O Mariachi (1992) e A Balada do Pistoleiro (1994), filmes com perfil semelhante aos de Tarantino. E a junção dessa dupla acaba sendo bastante evidenciada na primeira hora de Um Drink no Inferno, que segue os irmãos Seth (George Clooney, na época estrelando E.R.) e Richie (Tarantino!) Gecko, que acabaram de assaltar um banco e estão em fuga pro México.

O plano é atravessar a fronteira dos EUA com o país vizinho e para isso eles contam com a "ajuda" do ex-pastor Jacob Fuller (Harvey Keitel) e seus filhos Kate (Juliette Lewis) e Scott (Ernest Liu), que são arrastados para essa confusão durante uma viagem de trailer. Após conseguirem o almejado, eles vão em direção ao Titty Twister, um bar de beira de estrada mexicano para motoqueiros e caminhoneiros, onde a missão dos irmãos será concluída com um encontro final. 

Até aí, a história caminha como uma clássica ação, mas a reviravolta chega quando menos se espera: uma briga de bar acaba condenando todos - os humanos - no local quando revela-se que o estabelecimento é habitado por vampiros sanguinários. E uma vez que o banho de sangue começa, ele só deve parar no amanhecer...


Subvertendo todas as expectativas ao basicamente trocar de gênero num ponto já tardio - porém acertado-, Um Drink no Inferno não perde o gingado justamente por ter duas partes tão diferentes mas executadas de maneira impecável. Embora o foco esteja na segunda metade, é na primeira que a parceria da dupla se prova imbatível por estabelecer bem todos os personagens numa situação que prende desde já a atenção do público, sem falar que nos engana ao vender um filme "sério" antes de abraçar o trash em seu enésimo nível. O que os (e nos) espera no Titty Twister acaba sendo um bônus... pra lá de bom!

É interessante mencionar como os personagens, principalmente os dois irmãos, pesam para que não haja uma quebra de atenção nesse primeiro ato. Enquanto Seth é o irmão mais focado e ganancioso, Richie (numa interpretação não-tão-ruim do Taranta) é o desequilibrado. A sintonia - ou a falta dela - é essencial para criar a bola de neve em que eles estão metidos. Por exemplo, na ótima cena de abertura, os Gecko estão escondidos numa lojinha de conveniência enquanto um policial faz sua visita de rotina. Cabe ao atendente "atuar" para que não haja suspeitas. E tudo estava indo bem até que Richie insiste que ele estava pedindo ajuda discretamente...

Uma vez que a selvageria se dá início dentro do bar, além dos papéis serem totalmente invertidos (não temos mais apenas os criminosos e os reféns), somos bombardeados com caos e carnificina. Não há saída e os poucos humanos são rapidamente trucidados pelas criaturas demoníacas, cuja maquiagem é feita pelo Greg Nicotero. É uma visão do inferno e a criatividade rola solta dentro dessa sequência, montada de forma frenética para maior imersão na confusão. Aqui temos mortes violentas e engenhosas, os vampiros tem visuais bem desenvolvidos e igualmente bizarros, há sangue vermelho (e verde) para todos os cantos, sem falar na presença da banda que começa a tocar com instrumentos feitos de partes humanas e só para quando os protagonistas ameaçam matá-los!

Ainda utilizando os contatos que Rodriguez e Tarantino tinham na época de outras parcerias, o filme é repleto de participações interessantes. Seja Salma Hayek no papel da femme-fatale Satanico Pandemonium e sua emblemática dança com a píton, ou Tom Savini num caricato motoqueiro chamado Máquina de Sexo que, olhem só, carrega uma arma automática no meio das pernas e até mesmo o Cheech Marin que interpreta três personagens diferentes!

Embora na época não tenha feito muito estrondo, Um Drink no Inferno (podemos comentar o quanto o título nacional é bacana?) cresceu ao longo dos anos pra se tornar um clássico cult do gênero. É uma daquelas peculiaridades únicas que só poderia ter nascido com a união desses dois cineastas, que voltaram a colaborar em 2007 com a iniciativa Grindhouse, nos filmes Planeta Terror de Rodriguez e À Prova de Morte de Tarantino. E mesmo que tenha tido duas sequências de qualidade duvidosa e uma tentativa de adaptá-la para televisão (que durou três temporadas), acho que apenas a soma de R+T poderia reproduzir algo tão específico e divertido novamente.

Título Original: From Dusk Till Dawn
Ano: 1996
Duração: 108 minutos
Direção: Robert Rodriguez
Roteiro: Quentin Tarantino
Elenco: George Clooney, Harvey Keitel, Quentin Tarantino, Juliette Lewis, Salma Hayek, Tom Savini