Crítica: A Casa dos 1000 Corpos (2003) - Sessão do Medo

7 de agosto de 2019

Crítica: A Casa dos 1000 Corpos (2003)


O filme que deu início a tudo. Antes de dirigir a infame - e divisora - refilmagem de Halloween em 2007, Rob Zombie era o vocalista da banda de rock White Zombie. Depois de seguir carreira solo, ele continuou a construir uma sólida imagem nos Estados Unidos, o que chamou atenção dos estúdios. Sempre usando filmes de terror como inspiração para os seus trabalhos (principalmente seus videoclipes), ele foi convidado pela Universal para bolar uma atração em seu evento Halloween Horror Nights, mas não esperava que essa ideia acabasse virando seu filme de estreia.

Mesmo que só tenha conseguido lançá-lo três anos depois do previsto - ele foi gravado em 2000 e engavetado pela Universal por medo de tomar uma classificação extrema até que a Lionsgate adquiriu os direitos -, A Casa dos 1000 Corpos serviu de base não apenas para a carreira cinematográfica de Zombie mas também para sua maior obra autoral no ramo.

Profundamente influenciado por clássicos como O Massacre da Serra Elétrica (1974) e Quadrilha de Sádicos (1977), e isso é muito perceptível em tela, A Casa dos 1000 Corpos acompanha a fatídica noite em que um quarteto de jovens, fazendo pesquisas para um livro sobre atrações de beira de estrada, esbarram com a lenda do Doutor Satã. Curiosos, eles buscam o lugar em que o assassino foi enforcado e no caminho, acabam encontrando a caroneira Baby (Sheri Moon Zombie), que diz que o destino deles é próximo à casa dela. Como devem esperar, o carro quebra e eles são forçados a ir até a casa, onde conhecerão a bizarra família da moça, composta pela maliciosa Mãe Firefly (Karen Black), o gigantesco deformado Tiny (Matthew McGrory), o silencioso Rufus (Robert Allen Mukes) e o psicótico Otis (Bill Moseley).


Em seu debut, Rob Zombie coloca todas as cartas na mesa (literalmente, todas as cartas na mesa). Ele joga no roteiro uma grande confusão de propostas e inspirações. Há muita coisa acontecendo aqui. Enquanto brinca quase que recriando a família Sawyer (tem a caroneira, o avô, o filho debilitado e até o Otis usando rosto humano), Zombie ainda joga umas interseções caseiras que, segundo ele, são inspiradas nos vídeos gravados pela família Manson. Sem falar nisso, ainda há todo o subplot do Dr. Satã, que não fica muito claro se é de fato sobrenatural, e também a presença do Capitão Spaulding (Sid Haug), um palhaço que gerencia um museu de estrada que traz um quê de Pague Para Entrar, Reze Para Sair (1981), também do Tobe Hopper.

Para alguns saudosistas, essa mistura funciona bem. Afinal, mesmo em meio ao caos, Zombie consegue criar algo coeso, mesmo que não seja tão coeso assim. É o trabalho de um iniciante, que resolveu apostar em todas as suas ideias - e aparentemente efeitos disponíveis no editor - para criar algo extremamente bizarro e exagerado, mesmo que não consiga organizá-las perfeitamente. Isso pode ser justificado pela conturbada produção. O roteiro era reescrito constantemente durante as gravações (o final original por exemplo revelaria que o avô era o Dr. Satã e Denise encontraria apenas as experiências rejeitadas nos túneis), além de Zombie estar gravando várias cenas de formas diferentes para o caso da Universal não se agradar com o nível da violência.

A própria intenção dele era dirigir um filme B, daqueles que são exibidos em drive-ins (palavras dele mesmo). Então, mesmo que não seja o suficiente para o filme se sustentar por si só (se não fosse a sequência, não teria o peso), Zombie conseguiu marcar o seu nome como estreante. O curioso (talvez não tão curioso assim) é que ele mesmo disse em uma entrevista há alguns anos que reconhece que o filme é bagunçado, "uma falha em cima de outra".

Problemático, A Casa dos 1000 Corpos tá longe do que o "talento" do Zombie consegue proporcionar. É um filme arriscado, confuso e que embora tenha momentos interessantes, é incapaz de realmente mostrar a força de sua proposta - nem do seu diretor. Felizmente, essas figuras excêntricas retornam na continuação Rejeitados Pelo Diabo (2005), um dos maiores, quiçá o maior, acerto da carreira do Rob Zombie. E sem falar no inédito Three From Hell, terceiro capítulo da trilogia que está previsto para ser lançado em Setembro deste ano!
Título Original: House of 1000 Corpses
Ano: 2003
Duração: 88 minutos
Direção: Rob Zombie
Roteiro: Rob Zombie
Elenco: Bill Moseley, Sheri Moon Zombie, Sid Haig, Karen Black, Rainn Wilson