Crítica: Cine Pesadelo (2018) - Sessão do Medo

8 de setembro de 2019

Crítica: Cine Pesadelo (2018)


Antologias de terror têm um charme especial. Levar o espectador para histórias diferentes dentro de um mesmo filme é uma experiência divertida, por mais que sejam poucos os filmes bem-sucedidos nessa abordagem. Cine Pesadelo (2018) - que ainda está circulando por aí com o seu título original Nightmare Cinema - é um deles.

No longa, diferentes personagens são atraídos para o cinema Rialto por motivos que vão desde ver seu nome no letreiro do filme em cartaz até procurar um local vazio para uma transa. Uma vez dentro da sala, o Projecionista (Mickey Rourke, de O Lutador, em uma participação mais que especial) exibe histórias de terror  na qual os espectadores são os próprios protagonistas. Cinco pesadelos, cinco contos, cada um dirigido por um diretor diferente. 


O primeiro se chama The Thing in the Woods (A Coisa no Bosque, em português) e tem direção de Alejandro Brugués, do maravilhoso Juan dos Mortos (2011). Uma homenagem bem feita ao subgênero slasher, com a figura de um soldador perseguindo um casal de jovens no meio do nada. Com seus clichês e remetendo diretamente a longas como os da franquia Pânico (1996), é talvez o segmento mais bem-humorado de todos. O destaque fica por conta da cena em que o personagem Jason (Kevin Fonteyne) tenta atirar no soldador e bem... melhor não revelar o que acontece depois para não estragar o momento cômico. Brugués ainda consegue dar um gostinho de ficção-científica para a sua história. No fim das contas, um segmento bem maluco, descompromissado e divertido, do jeito que o público gosta. 

Na sequência, vem Mirari, no qual um casal vê no cinema vazio a oportunidade de ter mais privacidade para o seu encontro. O diretor Joe Dante (do clássico Gremlins) conta uma fábula sobre a busca pela aparência ideal que acaba tendo contornos macabros. A protagonista é Anna (Zarah Mahler), uma jovem convencida pelo namorado (Mark Grossman) a fazer uma cirurgia plástica para eliminar uma cicatriz no rosto. Trabalhando bem a tensão, Dante faz o espectador logo desconfiar de que há algo de errado na clínica Mirari - e é inevitável não elaborar teorias sobre o que vai acontecer em seguida. Mas nada poderia ter nos preparado para a bizarra e grotesca cena final de Mirari. Se você anda planejando alguma cirurgia plástica, melhor repensar.


Mashit é de longe a história mais politicamente incorreta das cinco. Um segmento de possessão demoníaca e exorcismo com direito a transa entre padre e feira e crianças sendo mutiladas em um internato católico. O diretor japonês Ryûhei Kitamura (Godzilla - Batalha Final) não economiza na violência e ainda gera aquela que é a melhor cena de Cine Pesadelo: o combate entre o padre Benedict (Maurice Benard) e as crianças endemoniadas. Tudo isso com uma trilha sonora que deixa o momento mais empolgante ainda. Um verdadeiro presente para quem gosta de terror e sangue na tela grande.

Em seguida, delírio e realidade se confundem em This Way To Egress (Por Aqui Para Sair, em tradução adaptada ao português), do diretor David Slade, de 30 Dias de Noite (2007) e de Black Mirror: Bandersnatch (2018). O segmento traz a história de uma mulher (Elizabeth Reaser) que vai ao médico para relatar que está vendo as pessoas ao seu redor ficarem com uma aparência monstruosa. Filmado em preto e branco e com cenários distorcidos, This Way To Egress lembra, de certa, os filmes do Expressionismo Alemão, como Nosferatu (1922) e o Gabinete do Doutor Caligari (1919). Impossível não ficar incomodado juntamente com a personagem nesse universo perturbador, sombrio, sujo e de figuras horrendas. A história poderia muito bem ser adaptada para um longa-metragem perturbador à la David Lynch. Uma curiosidade é que o ator Patrick Wilson (da franquia Invocação do Mal) faz a voz do marido com quem a protagonista conversa por telefone. 


Para encerrar, Mick Garris (Criaturas 2) traz uma história com gostinho de O Sexto Sentido (1999). Depois de ser baleado e perder os pais em um assalto, o garoto Riley (Faly Rakotohavana) morre e é reanimado em questão de minutos no hospital. Essa experiência "pós-morte" concede a ele a habilidade de ver e interagir com os mortos. O problema disso tudo é que a mãe do rapaz está doida para levá-lo com ela para o outro lado. Com boas atuações - especialmente do jovem protagonista -, Dead tem também um roteiro criativo que encerra bem a antologia e ainda deixa um gostinho de "quero mais". Tomara que o cinema Rialto e o projecionista vivido por Mickey Rourke (de O Vencedor) em uma participação mais que especial voltem a receber espectadores em um Cine Pesadelo 2


Título Original: Nightmare Cinema
Ano: 2018
Duração: 119 minutos
Direção: Alejandro Brugués, Joe Dante, Ryûhei Kitamura, David Slade e Mick Garris
Roteiro: Sandra Becerril, Alejandro Brugués, Lawrence C. Connolly, Mick Garris, Richard Christian Matheson e David Slade 
Elenco: Sarah Elizabeth Withers, Zarah Mahler, Maurice Benard, Mickey Rourke, Richard Chamberlain, Kevin Fonteyne, Eric Nelsen, Faly Rakotohavana, Lexy Panterra