Crítica: Into the Dark 1x12 - "Impura" (Season Finale) - Sessão do Medo

21 de setembro de 2019

Crítica: Into the Dark 1x12 - "Impura" (Season Finale)


Season Finale costuma ser precedida pelo espectador como algo épico. O que não é pra menos, pois é só lembrar de términos de temporadas como da série Lost que se entende como é inevitável a ansiedade para tal momento. Se tratando de uma antologia, Into the Dark não depende de um gancho para o ano seguinte, ainda assim, a espera por uma história acima da média faz parte da expectativa para o último número do show. Dito isso, Impura sobressaiu na crítica social, mas o programa do Hulu permaneceu com o fraco terror.

Comemorado em diferentes datas em muitos países, o dia da filha (Daughter's Day) foi o feriado escolhido para o encerramento da temporada antológica. Bem diferente do lazer com a família, amigos e alguns presentes, a realidade de Shay (Jahkara Smith) e Jo (McKaley Miller) é opressora: pressionadas pelos pais, as irmãs são obrigadas juntamente com outras garotas a participarem de um retiro de pureza. Isso não sendo pouco, a presença de algo maligno incita um mistério e desafia a sanidade no local.

Longe da inocência que o nome bonito sugere, a tradição que rega o retiro é orquestrada por homens, principalmente pelo pastor Seth (Scott Porter) seguido de figuras paternas, os quais servem como representantes das filhas e bússolas para que elas se mantenham incorruptíveis: virgens, sempre de roupas brancas (até peças íntimas) e puras para encontrar o parceiro certo. 

Até lá os homens podem continuar sendo homens: convictos de suas masculinidades, vestindo o que desejam, traindo e namorando, e as filhas devem manter o foco de não envergonhá-los com qualquer "impureza", caso contrário, deverão passar por um tipo de estabilização severa para relembrarem seus votos. Trazendo o miolo do retiro para outros horizontes, é típico da sociedade os pertencentes do gênero masculino não terem alguma oposição quando optam ficar sem camisa, já a mulher ouve que não se dá o respeito pela roupa que veste - e também recebem a culpa quando vítimas de estupro ou assédio, por exemplo.

Por ser persistente, Impura consegue divagar por outras problemáticas. Olhando para um casal, não é tão difícil ouvirmos relatos, sejam nos noticiários ou por pessoas próximas sobre mulheres que se encontram em relacionamentos abusivos. "Você causou isso", "isso é coisa de sua cabeça", "você é louca", "não vai sair com essa roupa", "quem era aquele que estava falando contigo?", "não precisa usar maquiagem", "só vai sair se estiver comigo", essas são algumas das repetidas frases no intuito de controlar e culpabilizar a esposa, namorada, companheira que os homens proferem como se fossem donos de propriedades.
Shay (Jahkara Smith) e Jo (McKaley Miller)
E se a parceira não quer continuar com o relacionamento, dar-se início a uma perseguição em que são feitas cobranças a cerca de qualquer coisa que esteja fazendo seja justificada. "Vi que realmente tá seguindo em frente, ele te faz feliz como eu fazia? Você sabe que só eu lhe proporcionava isto..." Assim, a mulher é levada a desacreditar na própria força, virtudes e liberdade, esquecendo até da beleza que tem.

Do mesmo modo como os pais exercem um domínio nas filhas, não é absurdo saber de experiências reais de meninas que são colocadas sobre um vínculo protetivo de agentes paternos, para serem "poupadas" do mundo lá fora. "Nunca que minha garota namorará com aquele sujeito". "Uma filha minha se relacionando com um rapaz? Me dá agonia só de imaginar". "Mulher e filha minha serão barangas mas não serão cortejadas por outros homens".

Para ampliar a trama, o roteiro de Hannah Macpherson trouxe o mito de Lilith como exemplo feminino que as jovens não deveriam ser. Das diversas versões que a figura carrega, a exercida aqui foi a que diz que Lilith foi a primeira mulher a ser criada do pó junto com Adão, e decidindo não ser submissa ao homem, fugiu do Jardim do Éden e posteriormente se tornando um demônio. Depois, veio a criação de Eva, a mulher frágil que deveria ser guiada pelo homem para não se perder. 

Com base nisso, o décimo segundo episódio da antologia firma as duas faces que almeja trabalhar: os absurdos do fanatismo religioso e a misoginia. Somando para os acertos, felizmente o enredo conseguiu ser bem conduzido ao transmitir os traços desconfortantes, alienadores e revoltantes de uma tradição liderada pelo patriarcado: fanáticos e machistas.

As consequências se revelam nos rostos de uma geração de meninas tementes de serem independentes, uma vez que isso significaria decepcionar os pais superprotetores e que não querem ser desrespeitados. A essência da história estava se consolidando com a crítica social, até o horror precisar aparecer para manter a proposta do show.


Longe de instaurar a atmosfera tensa e de acontecimentos sombrios, tentar encaixar o terror soou mais como um fator anticlímax do que uma ferramenta que acrescentasse de fato para a trama. 

Diante desta primeira temporada, algo não deixa dúvidas: manejar o terror não é o forte de Into the Dark. De um jeito banal, se tornou chato a inserção de arquétipos pífios no intuito de causar algum susto fácil, e em Pure (título original) fica comprovado que o enredo ficaria bem mais consistente sem o uso do jumpscare, visto que o desfecho do episódio deu um toque sobrenatural pontual e que anteriormente as investidas clichês não deram conta.

Contando com Impura, pela quarta vez a atração tratou de trazer mulheres dirigindo o episódio. Pela quarta vez, tivemos contextos em que personagens femininas lutaram contra o machismo, a misoginia, e enfrentaram seus traumas. Pela quarta vez, protagonistas empoderadas e fortes se destacaram com suas histórias. Assim, o programa do Hulu colabora para a pequena fatia de diretoras e roteiristas que vem crescendo no universo das séries.Que tenha mais disso!

Renovada para mais uma leva de doze episódios (que iniciará no mês que vem), a antologia do Hulu terminou sua primeira investida como de costume: atraente na crítica social e um terror instável que parece não ter encontrado seu tom. Seria Into the Dark capaz de se tornar mais madura com os próximos capítulos?
  
Título: Into the Dark - Pure
Episódio: 12
Ano: 2019  
Duração: 88 minutos
Direção: Hannah Macpherson
Roteiro: Hannah Macpherson, Paul Fischer, Paul Davis
Elenco:  Jahkara Smith, McKaley Miller, Ciara Bravo, Annalisa Cochrane, Scott Porter