Crítica: Contato Visceral (2019) - Sessão do Medo

25 de outubro de 2019

Crítica: Contato Visceral (2019)



Próximo da reta final do ano, ainda há alguns títulos do horror que estamos ansiosos para conferir. Como não poderia deixar de ser, o segundo filme comandado por Babak Anvari (do prestigiado Sob a Sombra, 2016) é um dos selecionados, embora a recepção desde que foi exibido no Festival de Cannes não tenha sido uma das melhores. Chegando na Netflix no última dia 18, podemos então tirar nossas conclusões sobre o titulado Contato Visceral. A experiência aqui teve de tudo um pouco, fazendo da agonia visual o seu forte.

Se juntando como mais uma película que faz crítica ao uso nada saudável da tecnologia, a trama do terror psicológico traz Will (Armie Hammer, Me Chame Pelo Seu Nome) como um dedicado e carismático barman. Ao finalizar o turno na presença de amigos, uma briga violenta entre clientes torna o encerramento da noite um pouco complicada. No fim da confusão, Will encontra um celular, que ao vasculhar, se depara com imagens extremamente chocantes. O que não esperava era ser arrastado para a realidade bizarra do conteúdo que contemplou.

Não restam dúvidas que Contato Visceral é um daqueles longas-metragens que te deixam pensativo depois de assistir. A sensação que dá é que consumiu algo inusitado e interessante. O título escolhido para melhor se encaixar com a premissa envolvendo um smartphone talvez afaste o real sentido que a  trama é centrada. O "visceral" sugere que uma mudança impulsionada surgiu depois que Will encontrou o dispositivo eletrônico, ao tempo que o nome original, Wounds (ferimentos) faz alusão a simbologia sobrenatural acerca de gnosticismo, portais e chagas, como também a algo que está presente no amigável barman. Fiquemos, então, com o nome em inglês.

Por se tratar de um estudo de personagens, o lado sobrenatural da coisa se apresenta como um artifício secundário aqui, sendo apenas um pressuposto para exposição do protagonista e também aplicar uma atmosfera sombria, com traços de paranoia e fobias para o público. Afinal, através de frases soltas nos diálogos, Babak evidencia a lógica por trás do mistério que rodeia o celular que Will adquiriu. O que resta para apreciação, são os efeitos causados após a descoberta de um aparelho caído no chão.


O que pode causar frustração é que o arco misterioso não ganha um desenvolvimento urgente, mas com uma aparição aqui e outra ali, a questão é resolvida, enquanto a abrupta alternância de Will vai ganhando força. De um generoso e animado barman, a personalidade do moço se transforma para alguém agressivo, obsessivo, ciumento, possesso e desleixado. E tudo isso começou quando achou que seu relacionamento com Carrie (Dakota Johnson) estava em risco.

Bastou a psicose da desconfiança bater para o Will exalar sua tendência fragilizada e fútil: se não consegue alcançar seus objetivos com persuasão e hostilidade, se abre o espaço para um homem alcoólatra e negligente. O resultado dessa masculinidade tóxica foi afetar todos ao seu redor, e até mesmo o emprego.

SPOILERS A SEGUIR É curioso notar que, assim como as imagens que Will viu no celular, ele passou a ver as pessoas as quais considerava tê-lo decepcionado de alguma forma, mortas brutalmente, e depois, Carrie e Eric (o cliente do bar) terem sido canais para aproximação de Will ao universo espiritual não compreendido. Assim, não foi atoa ela ficar por horas sentada em frente a um notebook, totalmente imersa no que pesquisava, e a ferida no rosto de Eric, ser a brecha que Will buscava para se preencher. FIM DOS SPOILERS


Neste caminho, Babak não equilibrou muito bem a narrativa entre a área pessoal de Will e o abismo do celular. Sem ter um ritmo envolvente, o que torna a história excitante é ver o desfecho do relato de um homem frustrado e vazio de seus propósitos.

A respeito disso, foi uma boa escolha discorrer os arcos através da perspectiva de Will. Como ele enxerga a convivência com Carrie, como ele enxerga a amiga Alexia (Zazie Beetz), como ele trata o fiel cliente do bar, Eric (Brad William Henke): se não existirem para seu benefício e alívio para insegurança, ele as torna automaticamente num problema que não precisa gastar mais tempo, ou seja, descartáveis.

Wounds pode ser um ótimo entretenimento para quem percebe que as intenções não estão focadas no mistério, e sim, na nuvem obscura que o protagonista carrega, e que de qualquer forma, se deixa levar pelo desenho desconfortável de imagens estranhas num ritmo dissonante.

Sessão do Medo alerta: o filme pode gerar incomodo para quem sofre de Tripofobia (fobia de furos, aberturas irregulares ou formatos geométricos) e Catsaridafobia (fobia de baratas).

Título: Contato Visceral
Ano: 2019
Duração: 95 minutos
Direção: Babak Anvari
Roteiro: Babak Anvari e Nathan Ballingrud
Elenco: Armie Hammer, Dakota Johnson, Zazie Beetz, Brad William Henke, Karl Glusman