Crítica: Morto Não Fala (2019) - Sessão do Medo

8 de novembro de 2019

Crítica: Morto Não Fala (2019)


Se encaixando com a recente leva de grandes produções, o filme Morto Não Fala só veio a acrescentar para o rumo que o terror nacional vem tocando. A diversidade para explorar o gênero é um dos pontos mais notáveis e, assim como As Boas Maneiras (2018), Trabalhar Cansa (2011), O Animal Cordial (2017), o longa dirigido por Dennison Ramalho combinou o horror a crítica social, o drama e o apavorante. O resultado é uma narrativa incitante, que dificilmente será esquecível, mas que faltou um pouco mais de equilíbrio.

Na pele do protagonista temos Stênio (Daniel de Oliveira, Aos Teus Olhos), um plantonista de necrotério que tem o poder paranormal de se comunicar com os mortos. Por mais que se sinta tentado e mais próximo em cada conversa que tem, tudo muda quando Stênio recebe uma informação sobre sua própria vida, o que desencadeia acontecimentos tenebrosos muito além do seu controle.

Dentre muitos elementos que elevam um filme, é incrível quando se desenha uma identidade, mesmo que o caminho seja estranho. Disposto a vestir a sua aura sobrenatural, Morto Não Fala opta por um CGI duvidoso e tosco, o que poderia ter sido revolvido se a escolha fosse por efeitos práticos, mas mesmo sendo tão horrível de encarar as cenas desse jeito, o longa se aproximou do trash sem medo, e com isso moldou seu perfil.

Muito brevemente ficamos a par da rotina que o plantonista leva: um relacionamento instável com a esposa Odete (Fabiula Nascimento), com trocas constantes de farpas e um desamor notório, o que implica também uma complicada conexão com os filhos Ciça (Annalara Prates) e Edson (Cauã Martins). A única cumplicidade que Stênio se vê entregue por completo é com os mortos que chegam na sala do necrotério. Através disso, Morto Não Fala trás a característica urbana como parte na narrativa e ambientação: toda vez que anda pelo bairro, visita a padaria local; tudo isso sendo refinado com uma fotografia esverdeada que casam o drama e o terror.


O arco dramático é curto, e seria bem interessante ver mais exemplos da relação conturbada que a família vive. Uma questão é que tivemos mais vislumbres que justificaram o comportamento do filho Edson, do que o de Ciça: no caso dela, recebeu um tratamento específico sem ter muitas nuances exploradas. O mesmo acontece com Odete, a mãe, retratada com certa personalidade e ações, até ser definida como vilã. ALERTA DE SPOILERS: É controverso como num momento ela quer que os filhos saibam o que o pai fez com ela, e em outro ela se esforça para machucar os filhos, qual a intenção de fato? FIM DE SPOILERS

Visto esse raso desenvolvimento do drama, é cativante como o filme corre para abraçar o terror, apelando para o gore e imagens gráficas. O tom do longa é desconcertante, e mesmo que invocar paranoia e a loucura gradativamente não seja novidade para premissas sobrenaturais, Dennison conseguiu fazer bom proveito dessas inserções, com destaque direto para a cena em que Stênio precisa passar por um emaranhado de linha com cerol; foi criativa, intensa e angustiante. Quer queira quer não, com elementos comuns, Morto Não Fala é sombrio e horripilante no que almejou entregar como terror sobrenatural e psicológico.

Ainda assim, mesmo que nas várias apostas tenha obtido algum êxito, Morto Não Fala não estabelece com clareza suas abordagens: temos aqui questões sobre culpa, loucura, retrato da violência na sociedade, crise conjugal e familiar, manifestações sobrenaturais, tudo isso no filme que parecia seguir um caminho totalmente diferente com base no que o título sugeria e durante os minutos iniciais parecia que o enredo estava determinado. O que poderia resultar num resultado mais contido e objetivo, sendo um terror social e dramático na medida certa.

No seu segundo filme de terror nacional, Dennison Ramalho realizou uma produção repleta de boas intenções, mas hesitante de mais para se decidir.


Título: Morto Não Fala
Ano: 2019
Duração: 110 minutos
Direção: Dennison Ramalho
Roteiro: Dennison Ramalho, Claúdia Jouvin
Elenco: Daniel de Oliveira, Fabiula Nascimento, Bianca Comparato, Marco Ricca